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Mestre Bento guarda os nomes dos personagens mais antigos do carimbó de Santarém Novo |
Santarém Novo, fim dos anos 1990.
Associações de moradores, sindicatos, centros comunitários e quantas mais
organizações da cidade se reuniram em um fórum. A pauta: fazer um grande evento
para promover a cultura local. E o que mais representativo do que o carimbó?
Quem não é de lá pode não saber, mas o batuque corre na veia dos nativos.
Consenso geral, dali saiu a faísca que gerou o “Festival de Carimbó de Santarém
Novo”, também conhecido como Fest Rimbó, um dos principais encontros de carimbó
do país.
A ideia original era usar o fervor do carimbó
para aquecer a economia do município, atrair turistas e vender bem durante os
dias de festa, mas o Fest Rimbó foi muito além.
Virou ponto de encontro e reconhecimento entre mestres de todo o Pará e
afora. Uma referência para praticantes e fãs dessa cultura centenária. Todo
esse potencial podia se sentir já na primeira edição do evento em 2002.
2002: o início de tudo
“Era uma estrutura bem precária, um
palco no meio da rua que parecia um palanque, mas o pessoal parou pra ver”,
lembra Isaac Loureiro, um dos organizadores do festival. “Apesar de ter algumas
pessoas da Prefeitura no fórum, não tivemos apoio do poder público. A gente fez
assim mesmo, na marra”. A estreia do Fest Rimbó não teve ares de mega
espetáculo, mas foi um sucesso de público.
Na base do “boca-a-boca”, grupos e
artistas de carimbó de todo o Estado aportaram a Santarém Novo. O município
está ali no coração, bem na fronteira entre o Salgado e a Região Bragantina.
Não à toa foi sede de uma Intendência no século XIX porque ele é um polo de
comunicação com toda a Região Nordeste do Pará. As mesmas qualidades que
favoreceram a afluência de tantas pessoas do universo do carimbó. “Veio gente
de longe, de Marapanim, Salinas, Maracanã e até músicos de Muaná, no Marajó”.
Concurso de composições: o carimbo vive
Quatro palavras explicam tamanha
procura: um concurso de composições. “A ideia de fazer o concurso veio da
preocupação em valorizar o carimbó como uma cultura atual, viva em contraponto
à visão que o carimbó é uma coisa do passado” conta Isaac. Na época, as rádios
AM e FM, só tocavam esse tipo de música na programação da madrugada. As bandas de baile guardavam os carimbós para
o fim do repertório, focando sempre na trinca de “Verequete, Pinduca e Lucindo”
e olhe lá.
“Mas será que não tem música nova?
Carimbó sendo feito agora?”, era a pergunta que se faziam os organizadores do
festival. A resposta eles já sabiam, novos grupos e compositores sempre
existiram. O concurso serviu para espalhar a notícia.
Havia uma regra básica: para
participar tem que ter música inédita e original. “Isso deu visibilidade para
uma geração inteira de compositores que estavam ali invisíveis”, afirma Isaac
Loureiro. “Compositores maravilhosos, alguns bem idosos já, que tivemos a honra
de ter no palco, e alguns compositores novos, muito bons, que estavam surgindo.
Isso foi um diferencial muito importante”.
Nessa primeira fase, o regulamento
não fazia divisão entre carimbó tradicional, o “raiz’”, e aquele tocado com
instrumentos modernos e elétricos, conhecido como “estilizado”, nem julgava
temática. As próximas edições incorporariam esses critérios. O que importava (e
ainda importa) era o ineditismo e a qualidade do som.
2003
Sucesso comprovado, o Fest Rimbó foi
apoiado pela Prefeitura de Santarém Novo e Governo do Estado, em sua segunda
edição. A festa saiu da rua e foi para um ginásio da cidade. Fechando a
programação, por meio da Fundação Cultural do Estado, o maior popstar do carimbó: Pinduca. “De um ano
pro outro já virou um evento do porte um pouco maior e as pessoas viam que
movimentava bem, não só a população da cidade, mas dos municípios vizinhos que
vinham e daí ele só foi evoluindo”, diz Isaac.
2004 : Quando o palco não é o bastante
Dois anos depois de surgir o Fest
Rimbó, foi criado o Festival de Marapanim, município da Região do Salgado
também com uma longa tradição no carimbó. Em Santarém Novo, começava uma
reflexão. Muitos grupos foram criados em Santarém Novo e em outros lugares a
partir do festival. O problema era que eles só se articulavam para participar
do festival, o resto do ano era de inatividade. “O festival se tornou um ponto
de agregação e aí nós vimos que o palco não resolvia, porque a gente via que
fora do palco, junto com as brincadeiras e a alegria de estar junto, vinham os
relatos das dificuldades dos problemas”, relata Isaac. Era ali, nos bastidores, e não no palco que os
mestres abriam como eles estavam se mantendo, como é que o grupo estava se
mantendo. A partir do próximo ano, essa dinâmica começaria a mudar.
2005: Nasce a campanha “Carimbó Patrimônio Brasileiro”
“Tem uma parte do público que só quer
saber do show, do que tem no palco. Pra nós não é só o palco, tem as rodas de
conversa, debates, a interação entre os artistas de carimbó. O palco é só uma
parte da história, do que rola. E foi essa a mudança fundamental na história do
festival”, considera Isaac. Tudo que ficava no segundo plano foi trazido para
frente para fazer parte da programação do evento. Além de ser uma vitrine, o
Festival se consolidou como um espaço de formação, encontros e troca de
experiências entre os participantes.
No mesmo ano, os mestres, grupos e
comunidades de carimbo do Pará presentes no Festival lançaram a campanha “Carimbó
Patrimônio Brasileiro” ou apenas “Campanha do Carimbó”, um movimento que
reivindica o reconhecimento do carimbó como um patrimônio da cultura nacional e
as condições para que seus guardiões perpetuem a essa tradição. Em dez anos, a
campanha conseguiria a tão sonhada titulação, que abre a possibilidade de uma
série de fomentos para o carimbó.
2015: o evento-movimento
Antes
com caráter bem regional, o Festival de Carimbó de Santarém Novo está ganhando
uma dimensão mais ampla. Não só o evento, mas o processo todo de articulação do
carimbó, porque as pessoas vêm pra dialogar com o carimbó, não só para
assistir, dançar, cantar ou tocar. “Não é essa relação, não é um festival nessa
linha da produção tradicional formal, é um festival encontro, é um festival
movimento, é um evento-movimento. É um evento que promove um movimento cultural
de discussão, reflexão, articulação, trocas, gera alianças e consolida
parcerias”, afirma Isaac Loureiro.
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